sexta-feira, 6 de junho de 2014

Amor e morte em Tabuleiro: A queda


Querido Ismar, eis o relato da viagem, conforme prometido. Te prepara, pois a história será demorada e repleta de metáforas e arquétipos desgastados -- acidentes trágicos, castigos míticos, ninfetas tilelês etc. -- e é possível que alguns deles não te causem impressão tão forte quanto causaram em mim. Para remediar o problema, elaborei uma atmosfera adequada para a leitura. Pega uma xícara de café com bastante açúcar e bota A matança do porco pra tocar na sua vitrola online: estamos em Minas Gerais e as peças se movem rumo a Tabuleiro a 100km por hora.
Somos quatro. Eu, Floriano, Joaquim e Cecília. Floriano e Joaquim são engenheiros literatos e fanfarrões, amigos de longa data, ambos de Uberaba. Cecília é namorada do Joaquim e dona do carro, não falava muito e se limitava a rir dos nossos causos e da nossa mineirice exacerbada pelo contato prolongado entre conterrâneos e pelo regresso à terra natal. Joaquim ia ao volante.
Embora seja muito bem humorado, Floriano ia cabisbaixo e macambúzio. Havia brigado com a namorada antes de partirmos. Em Juiz de Fora, ela lhe dera a sentença. Estava tudo terminado -- pura groselha, coisa de namorados, já estão cá cheios de chamegos e sorrisos. Na hora, vi que desligou o telefone com os olhos embargados, não quis nos dizer muita coisa.
Ficamos introspectivos. Eu lia, Floriano tocava gaita baixinho e Cecília devia estar cochilando. A leitura foi interrompida por um dialógo premonitório e ominoso:
Cê quer queu pegue o volante, Joaquim?
Haha, cê viu queu dei uma pescada, né?
Vi pelo retrovisor. Fiquei mei tenss.
Quê!? É sério isso? Você dormiu mejmo?
É essa musiquinha que o Flor tá tocano.
Cara, cê num tá me passano muita confiança, não, disse Floriano.
Que isso, tô de boa. Agora cordei.
Todos riram.


***


Seguimos sem mais incidentes até a casa de vó Neiva, em Vespasiano, logo depois de Belo Horizonte. Vó neiva estava de camisolinha rosa, de conversa com as vizinhas, num banco defronte o portão sempre aberto.
Bença, vó.
Bença.
Fomos recebidos com muita fartura: panelaços de comida, quitandas, café e guaraná. Passamos horas nos empanturrando e contando história.
Este cachorro Pimpão é muito bonzinho. Quando a gata dá cria, ele pega pra criar. Otro dia, a gata deu cria e colocou os gato tudo dendo forno à lenha. Os gato cozinharo tudim, fez vó Neiva, saindo logo depois, como se tivesse acabado de dizer a coisa mais trivial do mundo.
Bença, vó.
Bença, num some não, viu, meu fi.
E fomos embora, de barriga cheia, já de noitinha, vencer os últimos quilômetros da viagem. Cecília dirigiu até Conceição de Mato Dentro. Faltava pouco para chegar a Tabuleiro.
Pedimos informação num posto. No interior, dar direção é uma arte: Cêis vão segui toda vida, aí vai tê uma ponte, aí cêis vão passá a Copasa, aí cêis vão passá o posto de saúde, aí vai tê um morrim. Num sobe, não, viu? Cêis vão passá otra ponte, aí vira presse lado de cá. Aí cês vão vê a igreja, aí vai segui até um jardimzim e vai virá pra cá. Aí cêis vão vê um pé de umbu carregadim. Aí segue. Num vira pra lá nunca, se não cêis vai caí lá em Ibitipoca. Aí cêis chega em Tabulero.
Floriano assumiu o volante. Acostumados com a objetividade das direitas e esquerdas depois do terceiro semáforo, nos perdemos. Saímos pela estrada errada, rumo ao Serro.
Paramos para pedir informação a um guincho que socorria uns carros quebrados na beira da estrada. Voltamos, passamos pela ponte, pela igreja, pela outra ponte, pelo jardinzinho e adentramos a estrada de terra que levava a Tabuleiro.
Estava muito escuro. Eu tragava um palheiro no banco do carona. A ladeira era íngreme e a curva sinuosa. O barranco se aproximou com uma lentidão confusa e exasperante.
Uai, Flor, que isso, cê tá doido!? Cê num vai fazê a curva, não?
Já estávamos rolando.







rio de janeiro, 2014

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