segunda-feira, 28 de abril de 2014
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Às paredes
do que poderá falar minha poesia
do que poderei falar eu
que não sei nada
que não conheço nada
que não vi nada
e não vivi nada
eu que desconheço a natureza
que nunca escalei uma pedra
que nunca atravessei um rio a nado
e nem mesmo sei nadar
eu que não sei o nome das árvores
e não reconheço o canto dos pássaros
eu que desconheço os caminhos do labirinto burocrático
das cidades
que sequer compreendo os números do meu contracheque
e trabalho 40 horas por semana
para receber um salário de 4 dígitos
eu que dia após dia me entedio no metrô
na fila do banco do supermercado
eu que nasci na classe média
e desde então sempre fui médio
até quando fui pobre
eu que não sou bonito nem feio
Nem forte nem fraco
Nem gordo nem magro
que sou homem branco heterossexual
e nunca sofri nada na vida
nem nunca vivi um grande amor
quando muito um coração partido
e sempre muito bem merecido
eu que não entendo nada de política
que não sou de direita, nem de esquerda
e desprezo o desprendimento dos conservadores
e a arrogância messiânica dos progressistas
mas acho que estou acima de todos
com minha boca cheia de dentes e opiniões
e pensando bem
talvez seja melhor ser medíocre e patético
assim poderei falar a todos
ou quase todos
por outro lado
se eu fosse gênio santo ou louco
só falaria comigo mesmo
e minha poesia
às paredes
Rio de Janeiro, 2014
(Conversa com Fernando Pessoa)
quinta-feira, 10 de abril de 2014
Poema transviado
para raul corrêa
que é pirata empedernido da internet
e eis que
de repente
não mais que de repente
ousão, desvio a letra:
formoso
não faz assim
carinho não é ruim
homem que nega
não sabe não
tem uma coisa de menos
no seu coração
a gente nasce, a gente cresce
a gente quer amar
homem que nega
nega o que não é para negar
a gente pega, a gente entrega
a gente quer morrer
ninguém tem nada de bom
sem sofrer
desdigo o dito, feito cisco
no olho aflito, faço um rabisco
troco um traço, uma linha
desamarro o cadarço do poetinha
sem mudar nenhum verso
viro vinícius do avesso
e só desviro quando quiser
e se quiser
sou dessas
Rio de janeiro, 2014
(Conversa com Vinícius de Moraes)
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Poema da objetificação
“Amor, a quanto me obrigas”
Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade
Carlos, Carlos
Não faz ideia do quanto
Me identifico contigo
Não faz ideia do quanto
Me identifico contigo
Quanta simpatia tenho
Por suas confissões patéticas
E seus versos tímidos
(Eu também sou patético
E um dia já fui tímido)
Se fôssemos contemporâneos
Eu bem gostaria de ser seu amigo
Assim como você gastou
Eu muito gasto
A sola do meu sapato
Procurando o amor
Pelas calçadas de pedras portuguesas
O dorso curvado pelas ladeiras
De Belo Horizonte
Ou pelas ruas do Rio de Janeiro
Silencioso persigo silhuetas que somem
Pelos corredores dos shoppings e galerias
Olhando as vitrines
Magras e gordas
Brancas e pretas
Todas as formas
Todas as cores
Quer o meu pecado
(Ou quase,
Confesso que não gosto muito
do cabelo descolorido e alisado,
e prefiro sempre o crespo e o cacho,
mas não é sobre isso que eu queria falar)
Enquanto desnudava as passantes
Em busca de seios e loopings, Carlos
É possível que o amor estivesse
Bem debaixo do seu nariz
(E digo literalmente,
Bem debaixo do nariz,
Talvez por isso não tenha visto
Embaçado, sob o aro dos óculos)
E para que o amor não mais te escape
Onde quer que esteja
No céu, no inferno ou numa outra estação qualquer
Vou fazer o favor de acrescentar
Aos versos seus os meus
E se me atrevo a tanto é porque sei
Que talvez não sejam tão bons
Mas são tão patéticos quanto
O amor nem sempre vem no detalhe mais delicado
Num andar rebolado, num vinco de seda
Na curva do joelho ou na nuca despenteada
Tampouco naquilo (?) que as mulheres mais escondem
Às vezes, vem óbvio, esparramado e sujo
As mulheres o trazem insuspeitadas,
Já despido e aos pares
Estavam ali o tempo todo, Carlos
E você nunca prestou atenção neles
Os pés
Dos mais variados tipos
Os pés calejados da bailarina
O salto alto da secretária
As simplórias havaianas
E o couro das sandálias
Passeio pelas ruas descalçando as moças
Adivinhando seu caminhar na minha boca
Quanto menores os pés
Mais concentrados os nervos erógenos
Chupe o dedão com gosto
E elas se derramam em gozo
Rio de Janeiro, 2014
(Conversa com Carlos Drummond de Andrade)
quinta-feira, 3 de abril de 2014
No pé do ouvido
O amor me deu um tapa
No pé do ouvido
Meus óculos caíram
No chão
E se espatifaram
Agora vejo tudo embaçado
Mas não é só isso
O amor me deixou mudo
Sem tato
Sem teto
Sem tudo
O amor apagou
Um maço inteiro de cigarros
Na palma das minhas mãos
Na ponta da minha língua
No tapete da minha sala
Incendiou a casa
As janelas pegaram fogo
Pegaram fogo as cortinas
As roupas as estantes os livros
A cama os lençóis o piano de armário
Os meus cílios pegaram fogo
As minhas unhas o meu fígado
Pegaram fogo as minhas retinas
Agora não vejo nada
Rio de Janeiro, 2014
(Conversa com Jack White e Apanhador Só)
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