“Amor, a quanto me obrigas”
Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade
Carlos, Carlos
Não faz ideia do quanto
Me identifico contigo
Não faz ideia do quanto
Me identifico contigo
Quanta simpatia tenho
Por suas confissões patéticas
E seus versos tímidos
(Eu também sou patético
E um dia já fui tímido)
Se fôssemos contemporâneos
Eu bem gostaria de ser seu amigo
Assim como você gastou
Eu muito gasto
A sola do meu sapato
Procurando o amor
Pelas calçadas de pedras portuguesas
O dorso curvado pelas ladeiras
De Belo Horizonte
Ou pelas ruas do Rio de Janeiro
Silencioso persigo silhuetas que somem
Pelos corredores dos shoppings e galerias
Olhando as vitrines
Magras e gordas
Brancas e pretas
Todas as formas
Todas as cores
Quer o meu pecado
(Ou quase,
Confesso que não gosto muito
do cabelo descolorido e alisado,
e prefiro sempre o crespo e o cacho,
mas não é sobre isso que eu queria falar)
Enquanto desnudava as passantes
Em busca de seios e loopings, Carlos
É possível que o amor estivesse
Bem debaixo do seu nariz
(E digo literalmente,
Bem debaixo do nariz,
Talvez por isso não tenha visto
Embaçado, sob o aro dos óculos)
E para que o amor não mais te escape
Onde quer que esteja
No céu, no inferno ou numa outra estação qualquer
Vou fazer o favor de acrescentar
Aos versos seus os meus
E se me atrevo a tanto é porque sei
Que talvez não sejam tão bons
Mas são tão patéticos quanto
O amor nem sempre vem no detalhe mais delicado
Num andar rebolado, num vinco de seda
Na curva do joelho ou na nuca despenteada
Tampouco naquilo (?) que as mulheres mais escondem
Às vezes, vem óbvio, esparramado e sujo
As mulheres o trazem insuspeitadas,
Já despido e aos pares
Estavam ali o tempo todo, Carlos
E você nunca prestou atenção neles
Os pés
Dos mais variados tipos
Os pés calejados da bailarina
O salto alto da secretária
As simplórias havaianas
E o couro das sandálias
Passeio pelas ruas descalçando as moças
Adivinhando seu caminhar na minha boca
Quanto menores os pés
Mais concentrados os nervos erógenos
Chupe o dedão com gosto
E elas se derramam em gozo
Rio de Janeiro, 2014
(Conversa com Carlos Drummond de Andrade)
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