quinta-feira, 24 de abril de 2014

Às paredes


do que poderá falar minha poesia
do que poderei falar eu
que não sei nada
que não conheço nada
que não vi nada
e não vivi nada
eu que desconheço a natureza
que nunca escalei uma pedra
que nunca atravessei um rio a nado
e nem mesmo sei nadar
eu que não sei o nome das árvores
e não reconheço o canto dos pássaros
eu que desconheço os caminhos do labirinto burocrático
das cidades
que sequer compreendo os números do meu contracheque
e trabalho 40 horas por semana
para receber um salário de 4 dígitos
eu que dia após dia me entedio no metrô
na fila do banco do supermercado
eu que nasci na classe média
e desde então sempre fui médio
até quando fui pobre
eu que não sou bonito nem feio
Nem forte nem fraco
Nem gordo nem magro
que sou homem branco heterossexual
e nunca sofri nada na vida
nem nunca vivi um grande amor
quando muito um coração partido
e sempre muito bem merecido
eu que não entendo nada de política
que não sou de direita, nem de esquerda
e desprezo o desprendimento dos conservadores
e a arrogância messiânica dos progressistas
mas acho que estou acima de todos
com minha boca cheia de dentes e opiniões
e pensando bem
talvez seja melhor ser medíocre e patético
assim poderei falar a todos
ou quase todos
por outro lado
se eu fosse gênio santo ou louco
só falaria comigo mesmo
e minha poesia
às paredes


Rio de Janeiro, 2014

(Conversa com Fernando Pessoa)




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