para ana julia
que estava se sentindo triste, tristinha
mandei tatuar um navio no peito
mas não vou à parte alguma
marinheiro só
ninguém me ensinou a nadar
todos os dias quando acordo
calço minhas meias desbeiçadas
amarro o cadarço dos meus sapatos
e não me lembro dos meus sonhos
quem é que pode ter sonhos
quando logo cedo o despertador grita
os sapatos mostram a língua
e as meias desbocadas já acordam xingando:
taquipariu! já são oito horas
cê tá atrasado pro trampo
engole logo esse café
corre que cê tá atrasado
e feito o café que engulo às pressas
os sapatos engolem os meus pés
(será que engolem os meus sonhos
enquanto durmo?)
me levam a lugares onde não quero ir
e só me trazem de volta tarde da noite
mas pelo menos têm a decência
de me deixar fumar um cigarro no caminho
felipe diz que meus poemas são muito literais
não sei de onde ele tirou isso
logo eu que sou um romântico sem remédio
mineiro, nascido no dia mais frio do ano
e ainda por cima canceriano de sol e lua
como todo caranguejo, só sei andar de banda
tenho a casca dura e a carne macia
e vivo dentro de mim mesmo
marinheiro só, levo um navio no peito
ninguém me ensinou a nadar
tornei-me especialista na cartografia da alma
conheço o país da tristeza como a palma da minha mão
conheço cada uma de suas pedras
sei onde levam todas as suas estradas
rios e ruas (naquela casa viveu drummond
ali se encontravam van gogh, morrissey e judas)
não venham me falar de tristezas óbvias
de dias nublados e árvores de outono
detesto os pontos turísticos
e ainda mais os turistas
há tantas coisas tão mais tristes
a tristeza da luz esbranquiçada das lâmpadas fluorescentes
a tristeza das multidões solitárias nos shoppings (cidades fantasma)
a tristeza dos estacionamentos lotados de carros monocromáticos
a tristeza dos manequins iguais e enfileirados
nas lojas de departamento
a tristeza dos apartamentos espelhados nos conjuntos habitacionais
a tristeza do último cigarro que sobra no maço
a tristeza do café frio esquecido na garrafa
a tristeza do café requentado
e mais do que tudo, a tristeza do café melado de tão doce
a tristeza da dança das cadeiras no metrô
a tristeza dos edifícios construídos pela metade
a tristeza das avenidas cada vez mais largas (desertos de asfalto)
a tristeza da eletricidade estática no rádio e na televisão
a tristeza das telenovelas mudas nos bares
a tristeza das ligações interurbanas e internacionais via skype
a tristeza das milhares milhões infinitas fotos digitais excluídas
a tristeza das máquinas analógicas
e dos álbuns de retrato empoeirados
a tristeza das máquinas de escrever que não escrevem mais
a tristeza das caixas de correio que não recebem mais cartas
a tristeza de todos os objetos obsoletos
a tristeza dos cantores perfeitamente afinados
a tristeza da roupa de cama impecavalmente estendida
nos quartos de hotel
a tristeza dos amores muito facilmente correspondidos
a tristeza das vidas muito arranjadas
a tristeza dos pés apertados nos sapatos
a tristeza do atraso agourado nos ponteiros adiantados do relógio
que feito um moinho vai triturando os sonhos da gente
se tenho que ser engrenagem nesta máquina
serei engrenagem sem denterio de janeiro 2014
(conversa, dentre outros, com pieter bruegel, o velho)

Foi outro dia. cedim. Acordei e corri pra ver meu quase irmão apresentar o TCC. Não sabia que era a presentação dele e de meio mundo. Claro, meio mundo antes dele. Espera longa. Pior que fila de banco, melhor que fila de banheiro. Bem nessa hora achei vocë. Eu sei, o texto era pra Ana Julia que tava triste, tristinha. Mas quando li achei que era pra mim, de Aracaju ou do Alabama. Li e li de novo. E quanto mais eu lia mais dava agonia.Uma agonia de ser pega no flagra. Eita, e agora? Ele sabe de mim. Sabe direitim.
ResponderExcluirConversou com meu sapato essa coisa de me levar a lugares onde não quero ir e só me trazer de volta tarde da noite.Visitou os mesmos lugares do país da tristeza, embora deteste os turistas.
Moço, foi bom te ler.
Até.
Ô, Camila, que bom que cê gostou. Vi que você seguiu o blog, mas eu não tô escrevendo aqui mais, não. É muita dor de cabeça, esse blogspot. Tô lá no http://riccaldone.tumblr.com/ ;)
Excluirmuito maneiro seu blog, Yuri! poste mais. abrc!
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